Sete de julho de 2018. Paula Vilariño, jornalista do El Progreso, realiza umha retrospetiva do que foi um dos “sucesos” mais resenhados da imprensa local, que mais alarme social criou e que mais dados nos oferece acerca da intencionalidade política dos relatos sobre feminicídios e agressons sexuais na imprensa.

O violador de Augas Férreas ocupou várias portadas e reportagens do El Progreso, recriando o terror em todas as mulheres lucenses que, naquela altura, chegárom a esgotar todas as existências de sprays de autodefesa das armarias da cidade. O porta-voz municipal do concelho de Lugo, numhas polémicas e reveladoras declaraçons, recomendava às lucenses nom transitar determinadas zonas. Ficou assim claramente retratada a mensagem que o patriarcado nos envia. Como se elaboram estas notícias, a existência das mesmas dentro das páginas de “sucesos” e nom de política, a linguagem ou as metáforas utilizadas nelas dam-nos conta de que estamos perante umha prática nom casual, mas sistemática e funcional ao sistema.

As ruas do medo em Lugo

Assim se intitulou umha reportagem publicada no passado mês de novembro polo El Progreso onde se recolhiam as alegadas ruas que as mulheres lucenses tratam de evitar por medo. Esta notícia foi continuada no tempo por um inquérito via Twitter que realizou a ediçom local de La Voz de Galicia sobre o mesmo tema. De sobra conhecida é a realidade de que Lugo é umha das cidades com menores índices de delinquência e conflitividade nas ruas. Porém, a insistência em debuxar o contrário pola parte dos altofalantes do sistema é contínua. Por quê?

Nerea Barjola é doutora em feminismos pola EHU e publica no ano 2018 o livro Microfísica sexista del poder. Este texto é imprescindível para descobrir o que há por trás deste tipo de relatos disciplinadores. A autora oferece-nos todas as aprendizagens que conseguiu juntar depois de investigar a nível discursivo o feminicídio de Alcásser, destacado por deixar umha profunda pegada de terror em toda umha geraçom de mulheres nos anos 90. Apesar de estar o seu estudo circunscrito a este acontecimento, a autora adverte que desde o caso concreto consegue desentranhar um complexo sistema discursivo de aplicaçom global. Tal sistema discursivo é o próprio patriarcado que está a enviar mensagens de medo, linhas vermelhas, submissom e regresso à casa para as mulheres utilizando os meios de comunicaçom como alto-falante. Barjola, assistida por teóricos como Agamben ou Foucault no seu quefazer, politiza e coloca no seu justo lugar o papel que jogárom nos 90 os meios de comunicaçom neste caso. Eram uns anos com similitudes com o presente: o movimento feminista abria-se passo decididamente e conseguia fazer calhar na sociedade algumha das suas propostas. Barjola pensa que, perante aquelas conquistas, os discursos sociais e mediáticos sobre feminicídios cumpriam a funçom de exercer umha contraofensiva.

Nuda vida e estado de exceçom em Lugo: Caminho Real, A Milagrosa, A Piringalha…

O primeiro é chamar às cousas polo seu nome. Por isso Barjola fala de desapariçons forçadas, nom de desapariçons sem mais: há um sistema que permite e consente desapariçons e assassinatos de mulheres, nom é por vontade própria ou azar. As mulheres vivemos num estado de exceçom permanente dentro da alegada democracia. Os nossos direitos podem ser suspendidos em qualquer momento e o sistema vai continuar a funcionar igualmente. A nuda vida é a vida sem direitos, a vida que nom vale nada. Caminho Real, A Milagrosa, A Piringalha som os lugares que cumprem a funçom de atemorizar-nos e recriar o que ali nos pode passar, tal e como cumpriu essa funçom a casa de La Romana no relato terrorífico de Alcásser. Nas ruas de Lugo como mulheres podemos perder direitos, entrar em estado de exceçom e a nossa vida passa a ser nuda vida. Todo este entramado conceptual revela umha precisa andaimaria política e discursiva por parte do poder onde há umha chave fundamental: absolver o sistema patriarcal e culpabilizar as mulheres.

A animalizaçom dos vitimários

Se revisamos o perfil psicológico e pessoal que se nos oferece dos agressores sexuais encontraremos em todos eles as mesmas palavras: predador sexual, violador em série, perdedor… Para além de ser um jeito de recriar o medo, a mensagem que se lança é absolutória. Se som loucos ou predadores estám roçando o patológico, as margens sociais. Som, por tanto, casos isolados e contados que, dadas as circunstáncias vitais polas que tivérom que atravessar, nom pudérom ou soubérom agir de um outro jeito. Em nengum caso se presta atençom a toda essa andaimaria política e social que ampara a violência machista. Em sentido contrário, carrega-se contra as vítimas deste jeito: por sair a desora polas ruas “perigosas” de Lugo ou por ir vestida como ia Diana Quer no dia da sua desapariçom. Essa visom funcional dos vitimários como predadores fora de si é necessária para a patologizaçom dos juízos e afondar na máxima separaçom da sua raiz política. Nos julgados haverá dezenas de forenses ou psicólogos opinando sobre o grau de alienaçom mental do vitimário e na rua meios de comunicaçom opinando sobre a moralidade da vítima. Todo com a tarefa de silenciar a voz politizada e contextualizada do feminismo.

Discursos inseridos no corpo que modulam condutas

O próprio jornal El Progreso na mencionada retrospetiva sobre o violador de Augas Férreas advertiu que os sprays de autodefesa acabaram por esgotar-se na cidade. Também que as mulheres se avisavam, solidariamente, através de Whatsapp ou Facebook, de possíveis agressores nas ruas. Criou-se um clima de psicose coletiva que dá conta extraordinariamente bem do que significa viver em estado de exceçom e sem direitos. Susan Brownmiller, feminista e jornalista estadunidense, foi das primeiras em fazer finca-pé em que as violaçons nom som condutas de indivíduos inadaptados, mas parte do sistema. Para ela o medo é o elemento que condiciona o comportamento das mulheres. Por isso considera que, em parte, todas somos vítimas dessas violaçons.

Nerea Barjola advertiu que os discursos do terror elaborados para o caso Alcásser eram inseridos nos corpos das mulheres e vivenciados. A recriaçom do terror, a exposiçom dos corpos das raparigas, o afundamento em detalhes tem por funçom isto. Empatizar com essa dor, com essa possibilidade no próprio corpo e acabar por modular a própria conduta. Neste sentido, toda umha geraçom de mulheres dos 90 entrevistadas por ela no seu livro reconhecem que começárom a perguntar-se polas suas saídas nocturnas, a reduzi-las e a deixar directamente de fazer autostop. Perguntemo-nos qual é a intençom desses relatos disciplinadores presentes na imprensa lucense, polas nossas reaçons perante os mesmos e a de dezenas de raparigas adolescentes que se estám achegando ao feminismo, à participaçom política ou simplesmente vivendo a sua vida quotidianamente. É impossível nom pensar nestas mensagens disciplinantes, é impossível nom sentir medo.

A outra face da moeda: as cousas que nom nos contam

Viver numha sociedade que entende a sexualidade das mulheres como algo a conquistar, dá-nos a chave contextual para entender que existe umha cultura da violaçom que absolve e desdramatiza estes factos, judicial e socialmente. Embora feminicídios e violaçons apareçam sempre na imprensa retratados com espetacularidade, levados a cabo por desconhecidos, de noite e em lugares inóspitos, a verdade é que os dados revelam que a maior parte de agressons sexuais tenhem lugar por parte de conhecidos, em domicílios ou em contextos de lazer ou ócio. Conhecem-se os casos denunciados, mas há muitos outros que nom se denunciam. As moças sentem medo ou vergonha a denunciar, ou mesmo podem ter dúvidas acerca do seu próprio comportamento e resposta no momento da agressom. É o que recolhe June Fernández no seu revelador artigo “ Yo quería sexo pero no así”. Adavas, umha associaçom leonesa de assistência a vítimas, revela que apenas entre 12 e 15% dos delitos sexuais som assaltos. Deles, a maioria tenhem lugar através do uso da força, embora umha percentagem mui pequena seja com facas ou armas. Os meios de comunicaçom, de jeito claro, amplificam a espetacularidade e o medo com clara intençom atemorizante e disciplinante. Também com clara intençom monetarista, tal e como nos assinalou numha reportagem para o El Salto Pablo Santiago.

Entre a vitimizaçom punitivista e a autodefesa feminista

Durante umha das múltiplas entrevistas que se realizárom nos meios de comunicaçom no passado 25 de novembro, umha ativista de Vigo perguntava-se que estavámos a fazer mal quando há muita conscienciaçom, meios institucionais e monetários, campanhas públicas… e as mortas continuam a aumentar. Esquecer que estamos luitando contra todo um sistema, esquecer este contexto e fragmentar a realidade (que é o que fai a imprensa) significa esquecer que a violaçom forma parte do patriarcado como elemento fundamental para exercer a dominaçom e submissom das mulheres, significa deixar de lado a verdadeira raiz do problema e o fio do que tirar se queremos traçar umha rota certa. Porém, a vitimizaçom permanente também gera medo e indefensom. Mari Luz Esteban, antropóloga, insiste na necessidade de conceber as mulheres nom só como vítimas, mas também como agentes. Fagamo-lo assim e começaremos a ver com outros olhos as agressons, as violaçons e todo o sistema patriarcal que as ampara. Um caminho de difíceis equilíbrios, mas necessário.

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