Em todas as sociedades existem zonas escuras nas que se aborrece a diferença e fermenta o ódio. Num espaço mais ou menos velado da intimidade ou da conversa informal, alentam-se todos os tópicos contra o que nom encaixa, o que nom obedece a lei, o que nom se prega. Durante anos, este ruge-ruge silandeiro permaneceu confinado nas margens e pronunciado a meia voz, como se verbalizam todos os pensamentos vergonhosos.

As incertezas sobre a viabilidade da civilizaçom capitalista exten-dem-se já em todas as classes sociais

Algo pareceu mudar de vez nos tempos da crise das finanças e a vaga autoritária conseguinte. Pola vez primeira, em muitos espaços de convívio -bares, centros de trabalho, aulas, redes sociais- irrompiam teses vociferantes a questionarem os direitos da mulher e a pertinência do feminismo; a pedirem barreiras físicas contra os seres humanos que, fugindo da guerra ou dos efeitos da mudança climática, chegavam às costas da Europa; a baduarem contra hipotéticas imposiçons de línguas que, como o galego, luitam  contra a extinçom. Todas estas carragens parciais parecêrom fundir-se numha única, especialmente histérica, a partir de 2017: Catalunha encabeçava agora o ranking de preocupaçons e de xenreiras.

Também em Lugo

A cidade de Lugo é conhecida, com maior ou menor rigor, por baixos índices mobilizadores e um nível relativamente baixo de conflito social e político, especialmente se a compararmos com zonas da Galiza mais marcadas pola tradiçom do movimento obreiro. Num panorama de relativa atonia, algo começava a mudar, de maneira paralela ao avanço do processo de autodeterminaçom catalám. Bandeiras espanholas inçavam certas ruas, nas conversas públicas espalhava-se um discurso monocorde baseado nos tópicos mais pobres anticataláns, e ativistas que faziam o seu trabalho de solidariedade internacionalista recebiam frequentes apupos. Nom por acaso, o importante labor propagandístico de vários movimentos sociais da cidade (independentistas, anarquistas, antifascistas, feministas, coletivos pró-galego) aparecia sistematicamente boicotado. Ainda que a polícia política se dedica frequentemente a obstaculizar a difusom de ideias alternativas, desta volta contingentes de civis, ao que parece, implicavam-se nos trabalhos de censura. Um ambiente enrarecido que nos retrotrai -por agora sem tanta violência- aos anos da Reforma política, quando os grupúsculos ultras complementavam o trabalho policial.

O mando da imprensa empresarial

Se se puider realizar um estudo que correlacionasse os picos de fúria coletiva com a cobertura mediática da questom catalá, pensamos que os resultados nom iam ser mui surpreendentes: a temperatura dumha sociedade, o mais básico dos seus argumentários, mesmo os estados de ánimo nos debates, som sempre induzidos polas grandes cadeias televisivas. Os mesmos conglomerados mediáticos que som quem de silenciar ou minimizar graves problemas populares -o iminente colapso ambiental, sem irmos mais longe. Apesar da pluralidade de discursos que permitem as redes sociais, os movimentos populares teremos que refletir a fundo ainda sobre este particular, vista a sua insuficiência manifesta para erguer discursos contra-hegemónicos.

Direitos em suspenso

Para existir um discurso antifeminista, primeiro tenhem de circular mensagens simplórias contra as mulheres em geral (‘febles’, ‘manipuladoras’, ‘putas’, ‘insinceras’); para existir um discurso contra a causa obreira e o sindicalismo, primeiro devem espalhar-se lugares comuns contra o proletariado (‘lacaçáns’, ‘a gente nom quer trabalhar’, ‘esses moços querem viver de subsídios’). Para se generalizar umha postura contra a autodeterminaçom, cumpre antes do mais socializar imagens esquemáticas e vexatórias dos povos que pretendem existir. No refraneiro castelhano clássico e em parte da literatura, o estereótipo é-nos tristemente familiar: ‘juraste a un gallego, no pudiste venir a menos’; ‘antes puto que gallego’, ‘Galicia, gente sin sociedad, campo infecundo’, ‘el gallego es el animal más parecido al asno’. Frente à Catalunha, umha sociedade historicamente conformada tanto por umha fortíssima burguesia como por um massivo movimento obreiro, os tópicos fórom de outro cariz: o catalám judeu, negociante trampeiro, manipulador, egoísta, ocupou no imaginário nacionalista espanhol.

Ódio e direitos em perigo

As incertezas sobre a viabilidade da civilizaçom capitalista extendem-se já em todas as classes sociais; ao medo somam-se as muitas frustraçons que produz a dificuldade de mobilidade social ascendente, e condiçons de vida e trabalho cada vez mais precárias. Um enorme depósito de ódio e carragem está a ser canalizado pola extrema direita -em Lugo, na Galiza, e em boa parte de ocidente, evitando que deságue em perspetivas emancipadoras e práticas de ajuda mútua. Embora parte da base social comprometida com direitos e liberdades pense que o acontecido na Catalunha é um ‘problema alheio’, o certo é que a atmosfera criada polos poderes fácticos nestes últimos dous anos vai afectar, indiscriminadamente, contra qualquer proposta sócio-política que saia do guiom. O estado de cerco contra o ativismo de rua, que bem conhecemos em Lugo, bem poderia chegar a tentativas de ilegalizaçom contra organizaçons e ideias, como patenteia a ‘Operaçom Jaro’. O perigo é real e só a luita decidida pode pará-lo.

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